Geração Z zero paciência: se não vê progresso, troca de emprego

A Geração Z está pronta para mudar. Literalmente. Quase um terço dos jovens profissionais da Geração Z pretende deixar seu emprego atual nos próximos 12 meses. O motivo principal não é falta de comprometimento, mas a percepção de que não estão progredindo. Em um mercado que exige velocidade e resiliência, essa geração busca sinais concretos de crescimento. Quando esses sinais não aparecem, a conclusão é direta: é hora de seguir em frente.
A média de permanência dos profissionais zoomers em um emprego nos primeiros cinco anos de carreira é de 1,1 ano, a mais baixa entre todas as gerações analisadas, aponta um estudo recente da Randstad. Após analisar respostas de 11.250 trabalhadores em 15 mercados e combinar com uma análise de mais de 126 milhões de vagas de emprego em todo o mundo, o relatório mostra que enquanto a Geração Millennial ficava em média 1,8 ano em um emprego nos primeiros cinco anos de carreira, os profissionais da Geração X ficavam 2,8 anos e os Baby Boomers, 2,9 anos.
E qual é o gatilho para esse desejo de mudança da Geração Z? Segundo o levantamento, períodos curtos não significam pensamento de curto prazo. “A Geração Z não está mudando de emprego por mudar. Em vez disso, eles estão mudando por causa de sua ambição e da percepção de falta de caminhos dentro das funções que estão deixando”, cita o relatório “The Gen Z Workplace Blueprint: Future focused, fast moving”.
Existe um impulso genuíno de crescimento e de buscar caminhos de desenvolvimento claros, com aprendizado habilitado por IA. Pelo menos 54% dos profissionais zoomers estão ativamente procurando um novo trabalho, mesmo estando empregados, com 14% afirmando que não veem futuro onde estão. Apenas 56% acreditam que seu cargo atual contribui para alcançar o “emprego dos sonhos”. Essa insatisfação é mais intensa entre mulheres, trabalhadores operacionais e aqueles com menor escolaridade formal.

Carreira não é linha reta para Geração Z
As vagas globais para cargos que exigem de 0 a 2 anos de experiência caíram em média 29 pontos percentuais desde janeiro de 2024. Por exemplo, cargos juniores em tecnologia caíram 35%, em Logística, 25% e em Finanças, 24%. Em um cenário em que a IA está remodelando a estrutura e os processos de trabalho, é impossível esperar que o acesso seguisse os padrões das gerações anteriores.
A entrada da Geração Z no mercado não seguiu caminhos tradicionais. Muitos começaram com freelas, “side hustles”, estágios informais. Um quarto deles não seguiu o “modelo clássico” de primeiro emprego. Atualmente, apenas 45% ocupam cargos tradicionais em tempo integral, enquanto entre os talentos que trabalham em tempo integral, 31% prefeririam combinar um cargo em tempo integral com um segundo emprego paralelo: uma “atividade paralela” (side hustle).
Os zoomers são atraídos por opções não lineares de crescimento. A ideia de fazer outra coisa que não esteja necessariamente associada ao trabalho tem a ver com ganhar experiência, diversificar a renda e, em muitos casos, desenvolver a carreira. Apenas 11% planejam permanecer no emprego atual no longo prazo. Ou seja, a rigidez de cargos, “escadas” e planos fechados de carreira não encontra muita ressonância com os zoomers.

Uso ativo e predominante da IA
A Geração Z está adotando a IA para construir suas carreiras, mas enquanto a maioria usa a IA para desenvolver ou melhorar suas habilidades, 46% estão preocupados com o impacto da tecnologia em seus empregos.
Para muitos, isso reflete uma mudança mais ampla: as vagas de nível básico estão evoluindo rapidamente, e espera-se que os talentos mais jovens tenham fluência em tecnologia desde o primeiro dia, em vez de aprender na prática, como as gerações anteriores.
- 75% da Geração Z já usam IA para aprimorar suas habilidades (upskilling), proporção maior do que em qualquer outra geração.
- 55% utilizam IA para resolver problemas no trabalho – novamente, a taxa mais alta entre as gerações.
- Na busca por emprego, 50% dos zoomers recorrem a ferramentas de IA – uma proporção consideravelmente superior à de Geração X (37%) e Baby Boomers (29%).
A seguir, outros insights do estudo da Randstad.
Otimismo e apreensão coexistentes
- 58% expressam entusiasmo com o potencial da IA no ambiente profissional, um indicador de abertura ao futuro tecnológico.
- Ao mesmo tempo, 46% demonstram preocupação com os impactos da IA em suas carreiras, um aumento em relação aos 40% registrados no ano anterior.
Disparidades no treinamento e acesso
- Há um descompasso evidente no acesso à formação tecnológica:
- 46% dos homens receberam treinamento em IA contra 38% das mulheres
- 50% dos profissionais de escritório receberam esse treinamento frente a apenas 35% dos trabalhadores operacionais.
Velocidade de aprendizado como diferencial
- Apesar das desigualdades, 79% da Geração Z relatam que conseguem aprender novas habilidades rapidamente – um forte indicador de adaptabilidade.
O que isso significa?
- A Geração Z lidera o uso de IA como ferramenta de aprendizado, busca de emprego e solução de problemas, reforçando sua fluência tecnológica.
- Contudo, o entusiasmo pela IA é acompanhado por uma apreensão crescente quanto ao seu impacto profissional.
Autoconfiança, Insegurança e percepção de inadequação
- 41% da Geração Z dizem não se sentir confiantes para buscar outro emprego — mesmo estando ativos no mercado.
- Mesmo com ambição, a sensação de não estar à altura dos objetivos é forte: 2 em cada 5 jovens afirmam que suas condições educacionais ou origem social dificultam a realização de seus sonhos.
- Em termos de autoconfiança para atuação, os jovens profissionais da Geração apresentam 14% menos do que gerações mais experientes. Essa lacuna de confiança, de acordo com um estudo do The Wellbeing Project, se estende da vida para o trabalho.
Falta de mentoria e orientação
- Segundo dados recentes levantados via Harris Poll, 74% dos jovens (18 a 25 anos) não têm acesso a mentoria, considerado um recurso crítico para o desenvolvimento de confiança e carreira.
- Apenas 41% se dizem altamente confiantes para navegar no mercado de trabalho atual, um reflexo da solidão, insegurança e falta de apoio percebida entre os jovens.
Consequências para performance e desenvolvimento
Esses baixos níveis de autoconfiança podem gerar:
- Indecisão e falta de ambição, bloqueando escolhas de carreira claras.
- A diminuição da motivação para buscar desafios, o que impacta o potencial, engajamento e inovação.
- Maior dificuldade em lidar com fracassos e crises, fatores que exigem resiliência e suporte.
O que isso significa?
- A ambição da Geração Z convive com insegurança: muitos não acreditam ter os meios (educação, rede, mentoria) para alcançar suas metas.
- A ausência de mentoria e orientação clareia um gap importante que empresas e líderes podem e devem preencher.
- Medidas eficazes incluem:
- Programas formais de mentoria, conectando jovens com profissionais experientes.
- Feedback contínuo e cultura de reconhecimento, que valorize conquistas incrementais e fortaleça a autoestima.
- Treinamento em resiliência e mindset de crescimento, para que os jovens internalizem o valor do aprendizado a partir do erro.
O que as empresas precisam fazer agora
- Redesenhar vagas juniores: com a IA automatizando tarefas operacionais, cargos de entrada devem ser mais estratégicos e baseados em resolução de problemas.
- Clareza de crescimento: a Geração Z quer saber onde pode chegar, em quanto tempo, e o que precisa fazer para isso.
- Capacitação constante: aprendizado em IA, soft skills e experiências práticas devem ser universais, não privilégio de uma minoria.
- Liderança empática: gestores precisam ser coaches, não chefes.
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