O xadrez dos chips: a China faz um lance que mexe no tabuleiro global

De repente, não mais que de repente, o governo da China determinou que empresas nacionais suspendam os pedidos do chip RTX Pro 6000D, da Nvidia. O semicondutor que é produzido para workstations pode ser reaproveitado para aplicações de Inteligência Artificial (IA). A instrução, que na China assume o caráter praticamente de lei, provocou dor de cabeça: nas negociações nos EUA, as ações da Nvidia caíram 2,7%, enquanto as ações da rival AMD caíram quase 1%.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, que participava de uma conferência do Financial Times e foi pego no meio da disputa, disse que Washington e Pequim “têm agendas maiores para resolver”. Mas pouco depois a Nvidia recuperou a vantagem ao anunciar um investimento de US$ 5 bilhões na Intel e um plano para que, juntas, as empresas desenvolvam chips para computadores e data centers. O que representa uma “ameaça” para a taiwanesa TSMC. As ações da Intel subiram cerca de 23% com o anúncio, enquanto as da Nvidia tiveram valorização menor, mas também positiva. Por consequência, a participação de 9,9% do governo dos EUA na Intel passou a valer aproximadamente US$ 13 bilhões.
No mesmo dia, a Huawei anunciou uma nova geração de seus chips Ascend, que seriam potenciais concorrentes da Nvidia. O pipeline de produção se estende pelos próximos três anos, com o primeiro chip chegando até março de 2026 e o segundo no quarto trimestre. A empresa pretende lançar duas linhas em 2027 e 2028. Mais um movimento na rivalidade com a Nvidia.
No xadrez da supremacia tecnológica e geopolítica, a China transformou semicondutores em moeda de troca. Tudo isso na mesma semana em que China e Estados Unidos discutem o tarifaço imposto pelo governo Trump. Como o xadrez é feito de vários movimentos, vale conferir quem está se saindo bem até agora, e quem pode se dar muito mal.
Veja quem está se movimentando nesse tabuleiro
- A unidade de semicondutores do Alibaba, T-Head, desenvolveu um chip que a imprensa chinesa comparou em desempenho ao H20 da Nvidia. Ele foi desenvolvido especialmente para o mercado chinês.
- DeepSeek diz que gastou apenas US$ 294 mil para treinar seu modelo de IA. Em artigo na Nature, a empresa explica que incentivou o raciocínio do R1 por meio de aprendizagem por reforço.
- As ações chinesas atraíram a atenção de investidores internacionais. Desde o final de agosto, os 30 membros do Índice Hang Seng Tech adicionaram um total de US$ 240 bilhões em valor de mercado.
- Na fronteira da pesquisa, um chip que utiliza luz em vez de eletricidade está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia. Baseado em uma plataforma fotônica de silício, o chip promete avanços expressivos no processamento de IA, embora ainda esteja em fase laboratorial.
- Na mesma linha, cientistas chineses anunciaram um multiplexador fotônico de silício com arquitetura semelhante. A expectativa é que essa tecnologia evolua nos próximos três anos e tenha impacto direto em aplicações de IA de alta performance.
- A Nvidia também já está se preparando para a era pós-interconexão elétrica. Já introduziu duas plataformas fotônicas: Quantum-X para redes de GPU e Spectrum-X para redes de IA baseadas em Ethernet. O próximo passo é integrar interconexões ópticas diretamente entre as matrizes da GPU.
- E muitas startups estão apostando fortemente na luz, principalmente porque a fotônica permite superar diversos gargalos dos computadores modernos.
Se tudo se concretizar, o jogo pode mudar, de novo, em meio à escalada da chamada “guerra dos chips”.
Um pouco de contexto
No centro da Guerra dos Chips estão justamente os chips de IA – GPUs de altíssimo desempenho e aceleradores especializados, essenciais para treinar e rodar modelos de IA.
A Nvidia domina esse segmento globalmente, mas os EUA impuseram controles severos para restringir suas vendas à China, temendo que os chips sejam usados para fins militares ou de vigilância. A resposta chinesa foi imediata: fortalecer a produção nacional. Huawei lidera esse esforço com a linha Ascend, que vem ganhando desempenho e escala, mesmo com restrições tecnológicas.
Ao mesmo tempo, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), maior fabricante mundial de chips para IA, virou peça central da tensão. Um possível conflito envolvendo Taiwan poderia comprometer cadeias globais. Por isso, os EUA passaram a apoiar fortemente a Intel como alternativa doméstica, inclusive com subsídios bilionários via CHIPS Act.

Nesse contexto, cada movimento estratégico – de bloqueios a parcerias – tem efeito de dominó na economia global. O equilíbrio entre segurança nacional e dependência tecnológica está cada vez mais frágil. E como em todo bom xadrez, um lance inesperado pode virar o tabuleiro mais uma vez.
E dos complicadores
Falando no 2025 World Knowledge Forum (WKF), realizado no início do mês, na Coreia do Sul, Chris Miller, professor da Universidade Tufts e autor do best-seller global “Chip War”, alertou que o treinamento de especialistas em IA e a expansão da cadeia de suprimentos de semicondutores serão a força motriz por trás do crescimento da indústria. “Nenhum país possui todos os elementos da cadeia de suprimentos de semicondutores”, disse Miller. “Nenhuma nação é autossuficiente em componentes semicondutores, nem está sequer perto de atingir a autossuficiência.”
Miller projetou que a competição deve se intensificar porque as cadeias globais de IA dependem do mesmo conjunto limitado de equipamentos, e os fabricantes desses materiais são poucos. “Estados Unidos e China também estão insatisfeitos com o atual ecossistema da cadeia de suprimentos de semicondutores, mas são forçados a competir ferozmente para sobreviver”, acrescentou.
“Resolver problemas na cadeia de suprimentos exigirá colaboração entre vários países, empresas e instituições de pesquisa. Sem abordar as reais preocupações com a segurança e os conflitos políticos, as soluções para a cadeia de suprimentos permanecerão ilusórias”, afirmou.
Além disso, a empreendedora Anastasiia Nosova lembra que, em 2007, 12 empresas podiam fabricar chips nos nós mais avançados da indústria. Hoje, restam apenas duas: TSMC e Samsung Electronics. Construir uma fábrica de ponta é extremamente intensivo em capital. Os custos iniciais excedem US$ 20 bilhões, com bilhões adicionais a cada ano apenas para manter a competitividade. Razão que faz com que gigantes como Apple, Nvidia, AMD, Broadcom e a maioria das startups de IA permaneçam sem fábrica própria.

A Intel ainda está lutando para voltar à vanguarda com as tecnologias de fabricação 18A e 14A. Conseguirá? Os próximos 2 a 3 anos serão decisivos. Quão inovadora a China será não só no design, mas na também na fabricação local de semicondutores? O último relatório do Yole Group, “Status of the Wafer Fab Equipment Industry 2025”, revela o surgimento de uma série de fornecedores de equipamentos para a fabricação de semicondutores, ainda desconhecidos fora da China.

Os chineses já desafiaram as previsões dos especialistas ocidentais sobre DRAM. A ChangXin Memory Technologies, Inc. (CXMT) reduziu significativamente a lacuna tecnológica, produzindo chips de memória DDR5 usando um processo de nó de 16 nm. Seria uma temeridade desconsiderar a possibilidade de autossuficiência chinesa na produção de chips para IA em algum momento, em um futuro não muito distante.
Sinais de impacto
- MP cria o Redata, que estimula data centers e impulsiona economia digital. Além de zerar os impostos de importação para produtos não fabricados no Brasil, a MP isenta equipamentos do IPI, PIS e Cofins, antecipando benefícios da reforma tributária de 2027. As empresas beneficiadas terão que investir 2% de seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento nas cadeias produtivas digitais no Brasil; ao menos 10% dos serviços deverão ser reservados para o mercado interno; e os projetos deverão cumprir exigências de sustentabilidade, com energia renovável ou limpa, além de eficiência hídrica.
- Financiar fábrica sé investimento de capital. Você aplica o investimento de capital na construção de algo útil que possa vender. O investimento de capital costuma ser, mas nem sempre, um precursor para o crescimento de um negócio. Os data centers de IA têm uma qualidade semelhante e algo mais. Não são apenas fábricas para um único produto; são infraestrutura. A Microsoft, a OpenAI e o governo dos EUA veem dessa forma. Eles veem a computação como uma utilidade fundamental do século XXI, não menos crítica do que rodovias, ferrovias, redes elétricas ou de telecomunicações em épocas anteriores.
- Estados Unidos e a China dominam o cenário global de unicórnios, representando 86% das 50 maiores empresas privadas do mundo, de acordo com o CB Insights. Os EUA lideram com 35 empresas (70%), enquanto a China contribui com 8 empresas (16%), mostrando como a inovação tecnológica e a formação de capital permanecem concentradas nessas duas regiões tecnológicas.
- A volta de Jack Ma ao Alibaba está dando o que falar: o fundador, que andava afastado após uma investigação em 2020, voltou a frequentar os escritórios da companhia e está envolvido em projetos de IA e robôs humanoides. O slogan que circula os corredores é que Jack Ma está de volta para “fazer o Alibaba grande novamente”.
- A Meta anunciou o lançamento de três novas versões de seus óculos inteligentes (smart glasses) durante o Meta Connect. O Meta Ray-Ban Display tem uma tela na parte interna da lente que pode traduzir conversas, exibir informações sobre pontos de referência e dar instruções e vem com uma pulseira. Algumas primeiras impressões dão conta que a tecnologia pode não estar à altura do design.
- Outra novidade da Meta é a plataforma Hyperscape, que permite aos desenvolvedores e criadores construir espaços mais realistas no mundo virtual.
- Google e PayPal firmaram uma parceria estratégica< para trazer novas experiências de compras e pagamentos de IA para seus usuários. O core do negócio está no comércio agêntico avançado, com uso de agentes de IA nas compras digitais.
Conteúdo originalmente produzido e publicado por The Shift.
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